"Sobre ontem à noite", de Edward Zwick, é um filme que gosto muito e que fala do encontro casual de dois jovens que acaba evoluindo para uma relação mais forte... Mas nem tudo é assim... No mundo real, o ontem à noite tem, na maioria das vezes, encontros que apenas te lembram como ficar em casa sem fazer nada pode ser uma ótima opção... Ontem foi assim... Começo essa série pela campeã da noite: uma roubada daquelas capazes de chocar até mesmo o indivíduo mais sem noção (ou como dizia um aluno meu: sem senso de noção).
Já estava no baile há algum tempo, tinha dançado um pouco com parceiros diferentes... O papo de sempre, como vc se chama, o que faz, onde mora... nada prá se impressionar mas também nada a preocupar... De repente o convite: - Vamos dançar? O cara não tinha nada de especial, baixinho, gordinho, não era bonito mas também não era um frankstein, não parecia esquisito, então... - Ok, vamos.
(Aqui preciso abrir um parêntesis na narrativa: se vc não costuma frequentar bailes, saiba que nesse tipo de ambiente, em geral, não é muito educado dizer não. Afinal, na teoria, as pessoas que estão lá foram porque gostam de dança de salão e estão prá praticar... a paquera não seria - ou não deveria ser, segundo a teoria - o principal... Então, tirando pessoas muito esquisitas, a tendência é dizer sim. E como "esquisito" é um conceito relativo, a maioria, em algum momento, consegue um sim...)
Como na prática a teoria é outra, resolvo checar o quanto o parceiro sabe dançar antes de começar. - Vc sabe dançar pagode?, pergunto. - Sim. - Ah! então vai poder me ensinar, digo simpaticamente sem revelar que estou no nível avançado do curso de Dança de Salão. E vem a primeira bomba: - Mas vc quer dançar ou quer que eu te ensine? - Ui, não vai ser fácil... Quanto tempo dura mesmo uma música?, penso... mas digo: - Tem diferença? - Claro, se a gente for dançar vamos ficar por aqui só indo de lá para cá, se for te ensinar, aí temos que rodar o salão e eu ir te mostrando os passos.
Decido não responder - as duas opções parecem bem ruins. Quatro minutos, vai passar rápido. Ponho minha cara de paisagem e sigo em frente. Mas nada pode ser tão suave... - Sabe que logo que te vi percebi que vc era chata? E por que não tirou alguém legal para dançar?, imagino... - Ah, é? E resolveu fazer penitência dançando comigo? - Bom, ninguém é perfeito, todo mundo têm defeitos. Uns mais que os outros... mas insisto na cara de paisagem.
Insistência vã. - Tinha certeza que vc ia falar não quando eu te chamei prá dançar. Por que eu não fiz isso??? - Não, não costumo fazer isso. A não ser com gente muito esquisita ou incoveniente. Pronto, dei o primeiro alerta, agora ele se toca... quanto tempo falta mesmo pro final da música? - Não acredito nisso. Ok, sou chata e mentirosa... mas dá para notar que minha cara de paisagem é de tempestade à vista? - Eu sou grosso, já cheguei dizendo "Vamos dançar?", nem mesmo disse boa noite... Bom, pelo mesmo parece que não há uma total falência da autocrítica... Já se passaram quanto, 30 segundos? Deve ser carma...
- Vc não está entendendo... te vi assim que você entrou... e quando sorriu... que boca, que sorriso... Ai, meu Deus, é carma mesmo... e dos pesados... os crimes das encarnações passadas devem ter sido grandes... - Olha, desculpe, mas eu vim aqui só para dançar, não estou a fim de nada neste estilo. Segundo alerta, agora vai funcionar! Fácil, fácil, tenho esse discurso já decorado prá essas situações...
- No início eu também fazia isso, mas não mais. E vc não está acreditando em mim. Por que será? Seria pela voz meio pastosa de quem já exagerou no álcool? Ou por que, segundo a segundo, vc consegue piorar as coisas? A cara de paisagem já se foi e eu aposento o sorriso educado. Os olhos começam a se acinzentar... - Sinal de raios e tempestades, dizia meu pai...
- Eu posso te contar tudo que você fez até agora, com quem dançou, o que bebeu, quantas vezes levantou. Que meeeeda! Será que é minha noite de Atração Fatal??? Bom, pelo menos não sou casada nem tenho um coelho... -Olha, esse papo está ficando incoveniente. É melhor parar, ok? Tática de guerra, se os alertas não funcionaram, vamos prá ação direta.
- Não, eu quero que vc entenda... Sei exatamente como você é... Ai, meu Deus II! E eu paguei 20 anos de análise prá achar que nunca vou saber totalmente... quanto dinheiro desperdiçado... era só ter consultado esse guru... A cara de paisagem, o sorriso educado, a tentativa de terminar o martírio de forma de serena, tudo já se foi... Não importa mais quanto tempo falta prá música terminar. Só quero voltar prá mesa!
- Vc não se deixa levar por ninguém, ignora quaisquer pedras no caminho, não se importa com que os outros querem... pronto, minha deixa! Nem preciso me preocupar mais: basta confirmar as expectativas... - Vou voltar para a mesa.
- Como? Não, espere... - Não, isso já foi inconveniente demais. Não vou mais dançar. Desculpe.
Atravesso o salão rápido e chego à mesa. Quando vou começar a contar prá minha amiga o surrealismo da história, ele se debruça. Veio tão rápido que parece que o álcool atrapalhou apenas o raciocínio, não os movimentos. Ai, Senhor! Onde foi que eu errei? Deve ter sido o "desculpe" no fim. Devia ter parado no "não vou mais dançar"...
- Vamos conversar, não quero que você reaja assim. - Tudo bem, outra hora a gente conversa. Agora quero ficar aqui com minha amiga. - Não, não quero que fique um clima ruim. Quando a gente se encontrar de novo quero poder te cumprimentar... como amigos...
Ele estende a mão... olho prá minha amiga, que olha pro alto provavelmente prá não rir... ou chorar... procuro alguma ajuda a volta... Alguns homens olham mas parecem mais interessados em ver o desfecho da história que interferir para salvar uma mulher em apuros... ok, vamos terminar isso.
Estendo minha mão de volta. Ele a segura e beija. Eu devolvo um meio sorriso, não, um quarto de sorriso e penso: Agora ele vai embora. Mas não, os carmas tem que ser pagos integralmente. - Vamos voltar a dançar?
Chega. Agora não há educação ou compaixão humana que justifique. - Não, não vou e chega desse papo. Vc pode me dar licença, por favor? Está me incomodando! - Olha, eu quero que a gente seja amigos e... - Ok, (não deixo ele terminar a frase) somos amigos mas agora me dê licença.
Apesar das palavras, uso o tom mais firme do qual me lembro... o tom que o treinador da minha cachorra me ensinou. Não é mais um pedido, é uma ordem. Senta, junto, deita. Funciona. Novo beijo na mão e ele se vai.
Penso no livro de auto-ajuda que ganhei e que permanece fechado na estante, nos programas de humor terríveis que a TV passa no sábado à noite... Tudo que me fez sair de casa, agora me parece um programa paradisíaco...
domingo, 7 de junho de 2009
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